No útero da mãe, por volta das 18 semanas de gestação, um novo sentido se desenvolve no bebê: a audição. Desde esse momento em diante, os sons passam a integrar a vida intrauterina ao restante do mundo. A primeira música que ouvimos, muito provavelmente, foi o som do coração da nossa mãe

Um ritmo constante e tranquilizador, que algumas vezes pode se tornar rápido. Em seguida, um burburinho se reúne ao coro cardíaco, trazendo novas notas à composição. E assim a sinfonia da vida vai crescendo até que chega o momento que pode ser considerado como ‘doloroso’, o nascimento.

Contudo, não é incomum que ao ouvir vozes conhecidas, o bebê se tranquilize, e o estímulo incômodo de luzes, vozes e sons nunca experimentados antes, seja abafado. 
Nossa relação com os sons, a música em específico, teria realmente o poder de nos anestesiar, tranquilizar e alterar, até certo ponto, nossas percepções sobre a dor? Escolha sua playlist de aventura e venha saber mais.

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A ordem de desenvolvimento dos sentidos fetais é: tato, audição, paladar, olfato e por último a visão.. (Fonte: Getty Images)

Como a música pode afetar você?

A música é um conjunto de sons harmoniosos que tem função de expressão artística. Tudo o que produz som, pode ser ‘musicalizado’, mesmo cantores desafinados de chuveiro produzem música.

Nossa relação com os sons, que se inicia na vida intrauterina, tem um forte potencial de evocar memórias, produzir emoções, relaxamento e igualmente desconforto, como quando um microfone fica esquecido perto de uma caixa de som, produzindo microfonia.

Mas além dos efeitos psicológicos, a música também parece ser capaz de estimular a produção de alguns hormônios em nosso corpo, como a dopamina, serotonina e endorfinas.

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Bebês já podem ter um ritmo musical preferido, e isso pode estar ligado ao tempo da música. (Fonte: Getty Images)

Quando mães lactantes, por exemplo, ouvem o choro do bebê, uma cadeia neuronal é ativada, sinalizando para a produção de ocitocina que irá provocar uma contração muscular nas mamas, estimulando a liberação do leite.

Esse poder da música em provocar emoções e reações físicas também é utilizado no cinema. As peças musicais são especialmente escolhidas para cada cena, auxiliando a dar o tom das reações desejadas. Talvez você não passasse mal ou tremesse de medo se em uma cena de ‘O Exorcista’ estivesse tocando Raça Negra.

Com base nessas percepções, pesquisadores da Universidade de McGill, dentre outras instituições, têm testado os efeitos na música como medida não farmacológica para tratamento da dor.

O ritmo da música de cada um

A dor é algo bastante complexo e de causa diversa. Ela pode ser originada pelo estímulo nocivo de receptores de dor em nosso corpo, que levam ao sistema nervoso central a informação de que algo ruim está acontecendo conosco, como, por exemplo, uma topada do dedo mindinho em um banco.

Quando ocorre essa comunicação entre os nociceptores (receptores mecânicos da dor) e o Sistema Nervoso, esse estímulo doloroso pode ser chamado simplesmente de nocicepção.

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A dor também pode ser ‘provocada’ por identificação. Por isso você pode se sentir desconfortável só em ver essa imagem. (Fonte: Getty Images)

A dor total, é um conceito que engloba não apenas essa sistematização cerebral, mas também o desconforto causado por estímulos nocivos de ordem psicológica (mental e emocional), social e espiritual.

E tendo a música a capacidade de modular algumas das nossas emoções e estimular a liberação de hormônios, pesquisadores têm tentado verificar as potencialidades do uso da música como analgésico. 

Uma pesquisa da Universidade McGill, Canadá, testou a percepção de dor de 60 participantes, alguns músicos e outros não, a estímulos dolorosos.

A pesquisa também analisou o ‘tempo’ natural de cada indivíduo, nominando esse fenômeno como “taxa de produção espontânea”, para testar se casando o tempo da música ao tempo natural de cada um, o efeito poderia ser potencializado.

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Qual o seu tempo natural? Você é agitado ou faz o estilo lento e sempre em frente? (Fonte: Getty Images)

Segundo os pesquisadores, essa taxa de reprodução espontânea está ligada ao Ciclo Circadiano, que regula nosso sono e vigília, através da ciclagem do cortisol (dia) e da melatonina (noite). 

Para conhecer o que seria o tempo de cada participante, o grupo de pesquisa pediu para eles reproduzirem o ritmo de ‘Brilha Brilha Estrelinha’. Se você já cantou em corais, ou entre amigos em um karaokê, pode ter percebido que alguns são mais acelerados, enquanto outros cantam em um ritmo mais lento, esse seria o tempo natural de cada um. 

Após a métrica individual ter sido estabelecida, eles foram submetidos a estímulos de calor no antebraço. Nosso corpo possui nociceptores térmicos que ao ultrapassar um certo limite de temperatura, irão desencadear uma resposta neurofisiológica associada à dor. 

Os participantes foram expostos a esse desconforto em quatro situações: em silêncio (apenas estímulo de calor), ouvindo uma música de preferência em uma taxa de tempo 15% superior ao ritmo natural; ajustada ao ritmo individual e 15% mais lenta que o ritmo de cada indivíduo.

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Cada um dos nociceptores possui estímulos específicos de ativação, diferenciando também o caminho de comunicação com o cérebro. (Fonte: Getty Images)

Os dados apontaram para uma diminuição da percepção de dor dos pacientes, quando expostos à música, e interessantemente, o poder analgésico da música se mostrou superior quando o som estava sincronizado ao ritmo natural do indivíduo testado.

Segundo o grupo de pesquisa, a hipótese para esse efeito está na capacidade da música de “desviar” a rota neuronal que levaria a informação nociceptiva para o cérebro. Em um exemplo mais simples, seria uma distração no meio do caminho da informação de ativação neuronal, fazendo com que apenas parte da informação chegue ao destino.

Os achados dos pesquisadores da Universidade McGill são corroborados por outros estudos, contudo há algumas ressalvas.

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Eu gostaria de Cássia Eller, por favor, enquanto eu tomo minha vacina. (Fonte: Getty Images)

O estudo da universidade canadense, e alguns brasileiros, investigam a percepção de dor autorrelatada, ou seja, o quanto a pessoa percebe a dor e diz sentir dor. Essa abordagem, não mediu se as ativações cerebrais nos nociceptores realmente sofrem influências e o quão focados ou desviados podem ser da resposta aos estímulos nocivos.

Assim, ao focar-se na música, a ‘analgesia’ poderia ser desencadeada pela vontade intrínseca do participante em ignorar o estímulo de calor. Igual quando você ignora que queimou a boca e continua comendo algo porque está gostoso, ou por muita fome, entre assopros e lágrimas, dizendo que está tudo bem. 

Ainda referente à temperatura, os nociceptores térmicos transmitem as informações para o Sistema Nervoso Central por vias mais ‘lentas’ e difusas, o que poderia fazer com que a música tivesse tempo suficiente para distrair ocupar uma hierarquia de maior importância no nosso cérebro. 

Isso seria muito mais difícil com os nociceptores mecânicos, mais rápidos na transmissão da informação, assim como mais focais, por isso, ainda que você esteja ouvindo sua música preferida, bater com o mindinho no sofá vai te fazer esquecer/ignorar completamente o que está tocando no seu fone ou nos alto-falantes.

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Há dores que as músicas podem piorar, como a dor de um rompimento e o consumo exacerbado de “músicas de fossa”. (Fonte: Getty Images)

Os próximos passos para compreender o poder analgésico da música e como ela pode colaborar como medida não farmacológica para controle da dor, está em compreender como nosso cérebro reage aos estímulos nocivos enquanto ouve sua música preferida.
 
Em breve, exames de imagem podem revelar esses achados para que o mecanismo de ação possa ser compreendido e adaptado para cada indivíduo, afinal, Samba, Pagode, Vanera, Rock, diversos são os estilos musicais e diversos são as pessoas que as escutam, assim, a analgesia pode estar relacionada não apenas ao tempo musical casando com o tempo natural, mas também ao gosto individual.

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